Amanhã começa a temporada em Goiânia!!! Todos lá!
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quarta-feira, 25 de maio de 2011
segunda-feira, 16 de maio de 2011
Hello, rapeize!
Galera amiga,
dei uma sumida básica! Pra variar, em função de trabalho - o que é uma coisa boa!
Mas agora estou de volta, deixando algumas imagens pra vocês e a lembrança de que final de maio estou em Goiânia para 4 shows!
Logo mais apareço com novidades! Super-abraços!
Raul Franco
dei uma sumida básica! Pra variar, em função de trabalho - o que é uma coisa boa!
Mas agora estou de volta, deixando algumas imagens pra vocês e a lembrança de que final de maio estou em Goiânia para 4 shows!
Logo mais apareço com novidades! Super-abraços!
Raul Franco
FOTOS SAÍDA DE EMERGÊNCIA
ACESSEM O SITE: www.wix.com/raul_franco/site
terça-feira, 3 de maio de 2011
O computador dispersa
O computador dispersa – de Raul Franco
Quando fui morar no Rio de Janeiro, em 1997, fiquei praticamente um ano sem computador. E, talvez, esse aparelho não fosse um mal tão necessário até então. O meu computador só chegou de Belém em 1998. E era um humilde 486 da IBM que vinha me acompanhando desde 1994. Totalmente cúmplice de minhas histórias.
Eu usava meu computador praticamente para escrever. No máximo, brincava de criar alguma imagem no paint. Quando queria ler algo, pegava algum livro na estante. Recorria a alguma enciclopédia ao alcance das mãos para ter a certeza de algum dado. Pra ouvir música, procurava algum CD e colocava no meu Cd Player. Às vezes, curtia algum vinil que ainda não havia sido lançado em CD. Se eu quisesse alguma música que não tinha, eu teria que esperar o nascer do sol (porque quase sempre ouço música de madrugada) para ir em alguma loja garimpar CD’s. Pra curtir fotos, eu pegava um álbum de fotografia. Pra falar com alguém, eu ligava do telefone de casa – porque nem celular eu tinha na época. Meus amigos ainda me mandavam cartas e cartões de aniversário, via correio.
Hoje muita coisa mudou. A Internet nos dá a ligeira sensação de que precisamos estar conectados o tempo todo. Você liga o computador, entra no e-mail ou em alguma rede social e já tem gente te chamando, nem que seja apenas para dizer: “oi, miguxo!”. Todo mundo te acha em algum lugar na Internet.
Se você se prepara para escrever algo, quando liga o computador, isso já vai para segundo plano, pois logo você se depara com alguma coisa que não necessariamente você precisa fazer mas que te fisga e te afasta do teu propósito inicial.
Você navega antes por diversos sites. Lê um jornal on line. Vê a atualização de fotos de algum parente ou amigo no facebook. Twitta algo desnecessário e posta fotos que você tirou em alguma festa e que estavam no cartão de memória há mais de uma semana.
As horas passam depressa em frente ao computador. Se você tinha cinco horas para escrever, agora só resta uma. E você escreve rápido para ver quem está on line no MSN. Ou seja, o computador parece uma ferramenta indispensável, mas que muitas vezes te dispersa e você mente pra si mesmo que precisa tanto daquilo.
Tenho saudade de quando havia coisas além do computador. Se antes a TV era tudo em um lar, hoje o computador ocupa essa função. Famílias inteiras já nem conversam pessoalmente. No máximo, curtem o que você disse no facebook. Ou retwittam algo interessante que você escreveu no twitter.
O computador, então, se torna esse mal necessário. Não apenas o computador, mas a obsessão de estar conectado o tempo todo. Hoje, os próprios celulares permitem isso. Sua vida é contada 24 horas. Coitados dos fabricantes de diários antigos, feitos de folhas de papel.
Sorte de quem consegue vencer esse vício e corre para apreciar a vida, ver um pôr do sol, caminhar na praia, encontrar amigos para um bate papo no fim de tarde. Sorte do homem puro que ainda não foi contaminado pela excessiva vontade de estar on line.
Eu sou um viciado completo, confesso. Antes eu era mais. Hoje procuro maneirar ou usar o computador para realmente fazer algo útil. Se antes eu escrevia cartas de próprio punho, agora eu disparo e-mails. Já nem sei onde estão meus velhos CD’s. Mas ontem consegui pegar um livro e lê-lo todo. Coisa boa de se fazer. Também vi na estante um grande álbum de fotografias da minha família. Meio empoeirado, mas bastante vivo e que pode ser manuseado na hora que se desejar. E agora escrevo esse texto à mão, deixando no papel do caderno minhas impressões digitais. É claro que logo mais esse texto vai parar no meu blog e vou divulgar o link. Mas existem saudades que o tempo não apaga. E o bom é quando a gente consegue se reinventar. Porque o computador existe para ser usado e não para usar-nos. E hoje eu tirei um dia de folga dele. Ufa, eu consegui!
Não sei se antes eu era mais inteligente e feliz. Mas hoje tive essa sensação, afinal, me peguei parodiando uma canção do Titãs: “o computador me deixou burro, muito burro demais / agora todas as coisas que eu penso me parecem iguais”. Ao fim da canção, meu desejo era ter a sorte de ficar temporariamente off line.
terça-feira, 19 de abril de 2011
Ligeiras anotações sobre humor - por Raul Franco
Esse texto eu comecei esboçá-lo em 2003, acho. Quando eu estava num processo dolorido de montagem de um espetáculo meu - que era uma comédia. Mas a coisa estava bem difícil, já que muitos atores estavam conduzindo o texto de uma maneira desastrosa (risos). Como nada é em vão, eu comecei a pensar, no silêncio do meu quarto, o que eu realmente queria e defendo como comédia. Nunca postei esse texto ou publiquei. Ele ficou guardado esse tempo todo. E hoje acabei o encontrando no meu computador. E resolvi separar os esboços em tópicos. Muitos parágrafos eu os reescrevi, porque estavam mal escritos mesmo. Agora divido com vocês, que fazem comédia ou, simplesmente, apreciam. Façam bom proveito!
Ligeiras anotações sobre o humor –
Afinal, o que é isso que nos faz rir?
Ou
Pequena tese sobre comédia, segundo Raul Franco
TÓPICO 1 - Vamos levar o humor a sério
Eu penso o humor como algo extremamente sério. Pode parecer brincadeira, mas o humor, pra mim, deve ser encarado assim. Seriedade, no sentido da missão que você tem. E, principalmente, pensar no humor como uma ferramenta necessária para desencadear a válvula de escape das pessoas. Então, posso dizer que o riso nasce dessa libertação do estresse. Se ele foi embora, logo você pode dar aquela gargalhada que te relaxa.
Detesto o humor que se pauta no histrionismo, onde os atores gritam, fazem gestos grosseiros, tentando, em um ato desesperado, extrair uma graça. O tentar fazer graça é sempre um precipício do qual devemos fugir como o diabo foge da cruz. O ator que entra em cena, pensando: “Vou fazer todo mundo rir”, está fadado ao fracasso, pois humor que é humor, surge espontaneamente, sem se forçar.
TÓPICO 2 - Atores cômicos
Existem atores que são extremamente engraçados fora de cena, mas quando estão em cena não funcionam muito. Porque, muitas vezes, ele já vai pensando em fazer humor, o que mata a sua graça. Por outro lado, existem atores mais reservados, tímidos até, que se revelam em cena, fazendo a plateia gargalhar com a sua atuação, não porque ela foi medíocre, mas porque foi espetacular. Esse ator leva o humor a sério. Não é uma vedete qualquer que faz do seu rebolado a tentativa desesperada de seduzir pelo grotesco.
TÓPICO 3 – a) Como em qualquer gênero, o ator cômico deve se aprimorar
TÓPICO 3 – b) Charles Chaplin e a criação do seu Carlitos
Por falar em interpretar um personagem a vida inteira, não podemos esquecer Charles Chaplin e seu eterno Carlitos. O nome do personagem surgiu a primeira vez em um filme chamado Carlitos Repórter, de 1914 – o primeiro filme feito para a companhia Keystone Comedy Film. Mas o Carlitos que ele representou neste filme, que era mau-caráter e canastrão, é completamente diferente do Carlitos que se tornou conhecido mundialmente. O mais interessante foi como Chaplin o concebeu. Pensando em criar um tipo bem diferente e original, ele começou a pensar em alguns ingleses, observados por ele na infância, que andavam pelo subúrbio londrino. Eram baixos, tinham bigodinhos pretos, usavam roupas bem justas e tinham sempre à mão uma bengalinha feita de bambu. Daí nasceu a chave para se criar tal personagem. Para tanto, ele resolveu, ao compor o “novo” Carlitos, utilizar elementos contraditórios que desencadeassem o humor. Então, usou calças largas com um casaquinho apertado e sapatos maiores que os seus pés e, é claro, a famosa bengalinha. Estava pronto um personagem engraçadíssimo que influenciou e influencia até hoje diversos comediantes. A ideia do vagabundo com a alma de aristocrata é encantadora e atravessou os tempos. O humorista Renato Aragão, por exemplo, fez uso dessa imagem em seus filmes e programas de TV.
TÓPICO 4 – Fazer humor é como acenar com o falso óbvio
Dentro dessa viagem do humor, eu o defino com uma ideia que tenho na cabeça o tempo todo de que fazer humor é acenar com o falso óbvio. Ou seja, você pensa que o personagem vai fazer uma coisa e ele faz outra. É o drible que serve como um “tapa” que faz rir. É esse falso óbvio que proporciona o riso. Por isso, você ri do cara que cai na rua. Porque ninguém espera que, de repente, alguém caia, andando normalmente. O riso nasce do susto.
TÓPICO 5 – O desfecho da piada
Outra questão importante que penso e que aprendi com Chico Anysio, é que o importante numa cena de humor é o desfecho, assim como uma piada. O desfecho tem uma importância crucial. Então, levando em conta essa ideia, passei a pensar as minhas cenas curtas, esquetes de humor, começando pelo final. Primeiro eu tentava saber como acabaria uma determinada cena. Depois, ao criar um final que fosse realmente interessante, eu ia pro início. E isso acabou se tornando um exercício maravilhoso para mim.
TÓPICO 6 – O ator não precisa ser engraçado 24 horas!
Retomando uma questão inicial, presente nesse texto, e mais voltada para a interpretação dos atores, é necessário dizer que nem sempre aquele ator que não é engraçado no cotidiano está impedido de fazer rir. Muitos conseguem ter bons resultados em cena. Outros, não. E se o ator não é muito engraçado, podemos apelar para um humor técnico, calcado na repetição de movimentos, gestos e entonações vocais. Porque humor também não é só o ator estar em cena, esbanjando espontaneidade. Ele pode ter a técnica que consiga desencadear o humor. O que é interessante muitas vezes.
TÓPICO 7 – Humor absurdo
Também acho extremamente interessante a ideia de se fazer humor de forma séria, sem tentar fazer graça, conforme falei no começo. Nesse caso, divirto-me muito com os filmes de humor absurdo, realizados por Jerry Zucker, Jim Abrahams e David Zucker. Filmes como Apertem os cintos... o piloto sumiu (1980, dirigido pelos três), Top Secret (1984, dirigido pelos três), a série Esquadrão de polícia que originou o filme Corra que a polícia vem aí (1991, dirigido por Zucker) e suas hilárias continuações Corra que a polícia vem aí 2/2 e Corra que a polícia vem aí 33 1/3. Isso sem falar em Top Gang – Ases muito loucos (1991, dirigido por Abrahams). Gosto muito da utilização da meta-linguagem presente nas sátiras de outros filmes. E, principalmente, o modo como as interpretações são conduzidas – os atores, muitas vezes, falam o texto de modo muito sério, sendo que o que estão dizendo é a maior bobagem do mundo. Aí, percebemos algo que também já foi suscitado nesse texto, como a utilização de elementos contraditórios, ou seja, o sério e a bobagem, como desencadeadores do humor, porque o formato, a embalagem transformam aquilo que está sendo dito em algo extremamente engraçado.
Outra questão muito presente nos filmes e que também tem a ver com os elementos contraditórios, é o fato de esses filmes usarem constantemente a ideia de figura e fundo, isto é, temos uma imagem na frente, tida como a principal, e outra que se encontra lá no fundo. E, às vezes, a imagem do fundo acaba contradizendo tudo aquilo que está sendo dito pela imagem principal. O que também proporciona o humor.
TÓPICO 7 – A comédia na TV (coisas que me influenciaram)
Falando de humor, não posso deixar de citar duas figuras importantíssimas da televisão brasileira, responsáveis por programas inovadores, como TV Pirata e Comédia da Vida Privada. Estou falando, é claro, de Guel Arraes e João Falcão. TV Pirata, por exemplo, satirizava comerciais e programas de TV, fazendo uso também de metalinguagem o tempo todo. Inclusive, foi acusado por muitos críticos na época de estarem fazendo um humor elitizado demais. Por outro lado, o Comédia, partindo dos textos de Luís Fernando Veríssimo – um mestre do humor brasileiro -, conseguiu radiografar um pouco da classe média brasileira ao apresentar a sua intimidade. Dois programas que traziam atores excelentes e textos inteligentes. Duas combinações bombásticas para se fazer humor.
TÓPICO 8 – O mau ator engana no drama. Mas na comédia não
Já que falei de atores excelentes, vale dizer que um mau ator pode enganar, fazendo um drama, agora jamais engana, fazendo comédia, porque para fazer drama, basta pôr uma canção triste ao fundo, baixar um pouco a luz, fazer com que o ator fale mais pausado e pronto, logo se faz chorar. Ou seja, fica fácil se maquiar uma cena dramática. Agora a comédia bate em uma questão muito importante: o timming. Poucos atores têm timming de comédia. E para se fazer rir, é preciso muito timming. A piada tem um tempo, seja na forma como você diz o texto, seja na forma como você silencia, dá a pausa. É preciso uma atenção redobrada para dizer o texto na “batida” certa. Se você não disser o texto no tempo certo, perdeu a piada. Por isso, em muitas vezes, não se consegue repetir uma piada em todos os dias de execução de uma peça teatral. Um dia, você consegue, no outro dia, não. Então, cabe se exercitar diariamente, atentar para a forma como aquilo deve ser dito para gerar o riso.
TÓPICO 9 – O texto do humor como uma partitura
O texto de humor, como qualquer outro texto, deve ser entendido como uma partitura. Assim, como um grande pianista pega uma partitura musical e vai tocar de forma surpreendente, com swing, um músico medíocre pode pegar a mesma música e destruí-la por completo, tocando de forma quadrada. Assim se dá com as interpretações. Um grande ator pode não perder nenhuma piada do texto e, melhor ainda, descobrir outras que passavam despercebidas. Ele sabe o tempo certo de pausar, de dar o texto. E, mais importante ainda, ele sabe o tempo que deve esperar pelo riso da plateia. Porque também é extremamente importante dar um tempo para a plateia rir. E ouvindo uma vez o Jô Soares falar sobre isso, aprendi uma coisa preciosa: não se deve falar no meio do riso da plateia. Nem esperar pelo fim do riso. O riso é explosivo e depois tem uma curva descendente. Então, é necessário que esperemos o momento em que o riso entra nessa curva descendente para dar prosseguimento ao texto, gerando, quem sabe, uma nova piada.
TÓPICO 10 - Comédia x Drama
A plateia pode ser enganada em um drama, ou melhor dizendo, ao fazer um drama não podemos saber de imediato se a plateia gostou ou não. Já na comédia, a resposta vem imediatamente: se o público rir, é porque está gostando; se não rir, a comédia tem problemas. Se bem que acredito que existem comédias que fazem um humor mais cerebral (como os filmes de Woody Allen que eu adoro). A plateia pode estar gostando muito, assistindo a tudo com um sorriso nos lábios e poucas gargalhadas. Mas para o ator de comédia, a gargalhada é sempre muito importante. É um termômetro do trabalho.
TÓPICO 11 - A Explosão do Riso
O riso é uma reação física. É como o corpo reage ao que é ouvido ou visto. A gargalhada vem como uma explosão física mais intensa. Acho muito interessante quando vejo pessoas na plateia que não se seguram ao verem algo engraçado e acabam não controlando o riso, o que é muito bom para os atores que estão fazendo o espetáculo, pois percebem que estão provocando reações inesperadas. Aí o termômetro está respondendo melhor. Está medindo perfeitamente o tempo da piada.
Isso é bem similar ao processo de querer dançar uma canção. Primeiro você recebe aquela canção. Se ela te toca de alguma forma, você se joga nela e sai fazendo passos, demonstrando o prazer que aquela canção te dá. Tanto que, na pista de dança, quando se coloca uma canção que não agrada muito, o público se retira. Deixa a pista vazia. Assim acontece quando a piada não agrada. Se ninguém rir, isso é um sinal para abandonar a piada. E o mesmo acontece com o aplauso. O que é o aplauso? É a necessidade de demonstração de que aquilo que você viu ou ouviu te tocou de tal maneira que você tem que dizer isso, da forma como o público responde ao que gosta, aplaudindo.
TÓPICO FINAL - Conclusão
Na verdade, a ideia desse texto veio da necessidade de explanar sobre o que penso disso que é meu ofício: a comédia. Foram tópicos que estavam há um tempo no computador e que habitam minha cabeça no tempo em que estou criando e exercitando, seja como autor, diretor ou ator. E acredito que trocar dois dedos de prosa sobre isso é sempre algo benéfico no sentido de estamos construindo um pensamento sobre nossa comédia brasileira. E como hoje a comédia está em alta, esse texto serve bem ao momento em que vivemos, já que muitos atores estão descambando para esse lado. E, com o advento do stand up comedy, não-atores também estão criando seus próprios textos e os levando para os palcos da vida, com o único intuito de fazer rir. Muitos conseguem com maestria.
Então, vamos aplaudir esse momento e pegar o que escrevi como trampolins para novas ideias de humor.
segunda-feira, 4 de abril de 2011
Questões sobre Teatro
Mexendo em um cd velho, com arquivos meus, deparo-me com umas questões sobre teatro. E lendo a pequena entrevista, tento me recordar quando respondi a essas questões. E recordo que foi o ano de 2006. Uma amiga minha, Mariana, pediu-me para responder a algumas questões para um trabalho seu na faculdade de artes cênicas. E como achei bem legal rever isso, disponibilizo aqui para vocês, porque mesmo tendo passado alguns anos, muito do que está respondido aqui, tem a ver com o meu pensamento sobre as artes cênicas.
Segue, na íntegra, as perguntas e respostas:
- Fale um pouco da sua trajetória no teatro e sobre o que você está fazendo agora
- Eu comecei a fazer teatro bem novo, no colégio, com 9 anos, em Belém do Pará. Foi uma peça chamada Saci Pererê, no qual eu fazia o próprio. Não tinha fala. Tinha uma narração e eu entrava saltando com o cachimbo na boca. Gostei muito. Depois continuei a fazer peças no colégio até entrar para o grupo de teatro do próprio colégio, em 1985, quando eu estava com 11 anos. E fizemos uma peça chamada Circo de Brinquedos que foi uma ótima experiência, pois eu fazia um leão medroso e que em um certo momento eu dublava uma música dele. E tinha tudo a ver comigo, pois desde pequeno eu fazia dublagens de artistas que eu gostava. Até hoje lembro de muitos detalhes do processo. Inesquecível, pois foi um primeiro contato com todas as etapas de uma produção de um espetáculo teatral. E depois disso não parei mais. Continuei fazendo teatro direto. Espetáculos diversos e também encenação de poemas. Em 1997 eu vim para o Rio de Janeiro e passei a me dedicar direto ao teatro, fazendo espetáculos infantis e outras coisas. Em 1999 entrei para a Uni-Rio, onde fiz artes cênicas - interpretação. Dentre as peças que fiz estão obras como Inspetor Geral, de Gogol; Capitães de Areia, de Jorge Amado; Cafute e Pena de Prata, de Raquel de Queiroz; Nossa Cidade, de Thorton Wilder; O visitante, de Hilda Hilst; O último Carro, de João das Neves; Don Juan, de Molière e outras. Além de ator, eu também escrevo e dirijo. Acabei de dirigir agora um espetáculo de humor chamado Co-média Pão com Manteiga. E também voltarei em cartaz em agosto com a peça Fama Zero escrita e dirigida por mim. Estou em cartaz como ator na peça Tubo de Ensaio, no Candido Mendes.
2. Até agora qual trabalho você mais gostou de fazer? Porque?
- Muitos trabalhos são especiais. Têm a sua importância. Amei fazer Don Juan, por exemplo, porque era o personagem que eu mais queria fazer na vida: Sganarelo, criado de Don Juan. Por ter esse desejo, acho que tornei a experiência marcante. Na Cama com Tarantino foi outro trabalho muito especial porque brincava com a estética pop do diretor Quentin Tarantino. E eu fazia um personagem chamado White que era um assaltante de banco. Esses dois trabalhos foram extremamente interessantes para a minha carreira.
3. E o mais inusitado?
- Acho que entre os mais inusitados estão aqueles esquisitos, tipo animação de festa infantil. Não são bem trabalhos teatrais, mas são formas de descolar um troco. Teve uma festa na Barra que eu fiz o Tarzan. Aí o organizador da festa perguntou se eu poderia escalar o muro da casa para ter uma entrada triunfal. Eu topei. Ralei todo o braço, mas foi divertido. Fiquei de tanga a festa inteira, mas todos gostaram. E eu voltei pra casa com dinheiro na mão, rindo de tudo. Que coisas fazemos nessa vida, né???!!!
4. O que você mais admira em um ator?
- Admiro muito o ator versátil. A capacidade de criação. De aprimoramento. De olhar atento para a alma humana e conseguir extrair percepções para serem usadas na hora de se criar um personagem.
5. Em quais atores de teatro você se espelha?
- No começo de carreira eu me espelhava muito no Diogo Vilela. Ele tinha uma interpretação visceral que me fascinava. Algo meio nervoso e tal. Mas isso muito em função da TV Pirata que eu assistia. No teatro o vi em “Solidão, a comédia” e fiquei maravilhado. Era um monólogo fantástico. E antes disso, muito me chamava atenção o Ney Latorraca, por causa das suas interpretações nas minisséries Memórias de um gigolô, Rabo de Saia e na novela Um Sonho a Mais. Hoje curto muito o Marco Nanini.
6. O que você mais gosta de fazer, atuar, dirigir ou escrever?
- Pergunta crucial! Se eu só pudesse ficar com uma coisa, eu ficaria escrevendo. Se pudesse fazer duas coisas, eu escreveria e dirigiria. Por último, atuar, por incrível que pareça.
7. Você possui uma linha de trabalho ou procura diversificar
- Acho o meu trabalho muito específico. Os trabalhos que escrevi e dirigi tem muito a minha cara, ligada a comédia. Mas já fiz coisas bem autorais ligadas ao drama, a uma coisa mais profunda e dolorosa que eu também adorava fazer. Atualmente tenho estado ligado a comédias, a espetáculos de esquetes e tal. Mas estou com vontade de fazer outras coisas mais performáticas, com outras linguagens.
8. A maioria dos atores de teatro fazem algum trabalho paralelo a arte para poderem se sustentar, você acha que talvez falte incentivo ao artista brasileiro?
- Muito. Falta um monte de coisa. O artista brasileiro não tem muita formação. Ou melhor dizendo, a formação é muito precária. A gente aprende muitas coisas, às vezes, na prática. Ou fazendo ou olhando os outros fazendo. Por isso que gostaria de sugerir uma lei que permitisse também que o ator pagasse meia entrada no cinema. Porque o cinema também serve como forma de estudo para nós. O que o artista brasileiro deve fazer é correr mais atrás, se preparar da melhor forma possível. Porque no Brasil as coisas são muito precárias em diversas áreas, ainda mais no plano artístico.
9. O que é fundamental para um ator?
Observação acima de tudo. Buscar informação sempre. Cultura geral nunca é demais. Por isso é importante ampliar o leque de estudo porque nunca se sabe o personagem que irá se encontrar pela frente.
10. Como vc vê o teatro na educação brasileira?
- Tem uma importância fundamental. Eu quando estudava Ciências Sociais, desenvolvi um projeto chamado O teatro e a antropologia – uma perspectiva de educação, que visava tratar de temáticas antropológicas através do teatro. Foi uma experiência muito interessante que teve um efeito positivo. Porque abre o foco de observação. Você consegue apreender mais coisas porque sai um pouco da sala de aula. Assim como projetos teatrais dentro da escola são importantes, porque trabalha a formação da platéia que é muito importante.
11. Você ja fez algum tipo de projeto social? Como foi?
- Já trabalhei com projetos ligados a prefeitura do Rio de Janeiro, onde fiz alguns espetáculos encomendados com o intuito de festejar datas comemorativas. Foi o caso do espetáculo Assim Descobriram o Paraíso que era um espetáculo que falava, com muito bom humor, da chegada dos portugueses aos Rio de Janeiro. Esse espetáculo foi apresentado no Complexo do Alemão, Rocinha e outros lugares. A experiência foi boa porque eram comunidades carentes que responderam muito bem ao espetáculo. O meu outro espetáculo, chamado O mundo mágico dos livros também fez o circuito de bibliotecas populares. E foi interessante porque é um espetáculo que incentiva a leitura. E, ao final, sempre distribuíamos livros.
12. Diga pontos positivos e negativos de se fazer teatro no Brasil?
- Antes de mais nada, acho que todo mundo deveria fazer teatro, não só para virar ator, mas para desenvolver o espírito de grupo, de realizar jogos de criação e tudo. É uma boa terapia que nos permite aprender mais sobre nós mesmos. Isso é um ponto positivo, independente de ser no Brasil ou qualquer outro país. Fazer teatro também é bom porque nos coloca em contato com os mais diversos tipos de pessoas e não temos o problema de rotina, porque em cada grupo o processo é diferente. Agora o negativo é a velha coisa: é muito difícil sobreviver da profissão. Se não formos um ator da Globo, passaremos fome. Ser ator só de teatro no Brasil é muito complicado. Não dá pra sobreviver.
13. Você estava com uma peça de Nelson Rodrigues, fale um pouco da peça e de como foi montar Nelson
- Todo ator brasileiro deveria por obrigação fazer um Nelson. Eu confesso que nunca pensei em fazer um Nelson Rodrigues. Sempre amei ler os seus textos, as crônicas para os jornais e tudo. Mas nunca pensei em encena-lo, até porque tinha visto poucas coisas interessantes em termos de montagem. Sempre achava tudo muito gritado. Mas quando fui convidado para fazer Bonitinha Mas Ordinária não pensei duas vezes. Aceitei. E foi o máximo, porque Nelson é sempre intrigante. E nossa encenação brincava com ritmos da fala e optava por não fazer uso de nenhum cenário, só o ator em si, vivo em cena. Isso me motivou mais ainda. E vi o quanto ficou engraçada a peça. O quanto Nelson tem um humor surpreendente. E como eu estava em crise como ator, no sentido de questionamentos da profissão e outras dúvidas, acredito que fazer essa peça me deixou forte e ciente de que montar bons textos é fundamental.
14. O que você diria para alguém que está iniciando a carreira de ator?
- Desista. E se a pessoa vier me perguntar de novo, eu direi: desista. E, se mesmo assim, a pessoa, correr muito atrás e não ligar por que eu digo, aí sim verei que ela tem vocação. Afinal, eu mesmo já ouvi de diversas pessoas isso: DESISTA!!!
15. Você um dia me perguntou o que é ser ator. Para você o que é?
- Todo o dia quando acordo me pergunto: o que é ser ator? E tento responder todos os dias. Pra mim, ser ator é muita coisa. Além de decorar, é estudar o personagem. É brincar de ser Deus: porque criamos novas vidas. É emprestar a uma idéia de um personagem, nosso corpo e voz. É poder surtar diante de todos e ainda ser aplaudido. É poder ser louco em cena e receber o aval do público. É ser um apaixonado, um poeta da cena. Um Don Quixote eterno. É algo muito sério e fascinante. E concluo, dizendo que não é pra qualquer um, por mais que a cada dia muitos se arvorem a seguir essa profissão.
terça-feira, 29 de março de 2011
VERÍSSIMO
Veríssimo - por Raul Franco
Dia desses fui ver uma montagem teatral que utilizava textos do escritor gaúcho Luís Fernando Veríssimo (não vou citar o nome do espetáculo, por questões éticas). E fui muito curioso, afinal, sou um fã ardoroso desse escritor que muito me influenciou a escrever comédias.
O começo do espetáculo era bem interessante, tinha uma certa dinâmica, com os atores distribuídos pela plateia, relacionando-se com o que estava sendo dito por um certo “palestrante” no meio do palco.
Abrindo um parêntesis aqui, vale dizer que tenho uma coisa sagrada com Veríssimo. Assim como Nelson Rodrigues. E há comédia, tanto em um como em outro. E já vi milhares de coisas no teatro e TV, envolvendo a obra desses dois escritores. É claro, coisas maravilhosas e outras nem tanto. E uma coisa curiosa: em montagens de cursos de teatro, acho que os dois ganham disparados em relação a outros autores. São bastante montados por alunos.
Mas, voltando ao nosso foco em questão, quero dizer que sempre achei o Veríssimo genial. Muitos brincam, dizendo que ele trouxe à tona e colocou no centro da literatura as questões da classe média. Eu concordo. E uma vez, assistindo a uma entrevista sua, eu o ouvi dizer algo bem interessante e que, talvez, seja primordial em sua obra. Ele dizia que o seu texto tinha aquele ritmo, o jogo com as palavras, talvez, por causa da sua alfabetização em inglês. E se pegarmos mesmo a questão do humor em Veríssimo, notamos que a sua comédia tem mesmo essa ligação íntima com as palavras. Muitos dos diálogos tem esse jogo com o texto, a brincadeira com a forma da frase e o modo como ela é dita. E isso torna-se uma característica forte da sua obra.
Pois bem, voltemos agora a peça que eu assisti. O mais bacana foi entrar em contato com Veríssimo novamente. Na peça, muitos textos eu já conhecia, afinal devorei quase tudo que vi de Veríssimo ao longo da minha vida. E tem muito de Veríssimo no meu primeiro espetáculo autoral feito no Rio de Janeiro, Casal Consumo, que encenei ao lado do ator Wendell Bendelack.
Um dos fatores que achei mais grave na peça é o seguinte: os atores fazem também os personagens femininos. Até aí tudo bem. Mas o problema quando um ator faz um personagem feminino, é ele ceder a brincadeira gratuita de estar representando uma mulher. É ele se deixar seduzir pela voz que irá fazer, muitas vezes carregadas de falsetes exagerados. Aí a brincadeira ficará centrada nisso, perdendo a essência do texto – o que no caso de Veríssimo, é um crime.
Em várias cenas acontece isso. Os atores acabam se perdendo no fato de estarem fazendo personagens femininos e na graça pela graça que isso provoca. Alguns textos que eu conhecia, perderam-se em função disso. Afinal, o ator mergulhava na “gracinha” de estar sendo uma mulher naquele instante.
Acredito que quando um ator estiver fazendo mulher em cena, ele tem que ser tão neutro a ponto de que possamos esquecer que ali há um ator fazendo uma mulher. Claro que isso exige um exercício de abstração enorme da nossa parte. Mas o que quero dizer é que o fato de se estar fazendo uma mulher, sendo homem, isso não pode se tornar maior que a história que se está contando. Porque a partir do momento que você tem um texto rico nas mãos, você deve se deter na história e não na graça pela graça.
Ao me deparar com um dos textos encenados na peça, logo me veio à cabeça a imagem dele nas mãos de excelentes atores no programa Comédia da Vida Privada. Eu via na peça o ator fazendo a mulher, cheio de gagues desnecessárias, e eu só conseguia pensar na limpeza de movimentos e o desconserto da mulher casada que trai o marido na interpretação de Débora Bloch. Aliás, Débora Bloch é uma atriz que sempre me instigou. Quando eu comecei a escrever comédia, muitas vezes cenas de casal, no momento da criação dos personagens femininos, não havia outra atriz que eu pensasse que não fosse a Débora Bloch. Isso desde quando eu era telespectador assíduo da TV Pirata. E depois ficou mais forte com o Comédia da Vida Privada e mais tarde ainda quando eu a vi numa peça ao lado de Luís Fernando Guimarães, Fica Comigo Essa Noite, de Flávio de Souza, a minha predileção por ela se exacerbou.
Mas o ator, mesmo não sendo Débora Bloch (risos), poderia ter se detido basicamente na história que ele estava contando. E é um esquete maravilhoso que mostra uma mulher na sua casa, aos beijos com seu amante, porque o marido está viajando. Mas, surpreendentemente, o marido resolve antecipar a sua volta e ela se vê em apuros, tendo que esconder o amante às pressas no guarda-roupa. E o amante, assustado, acaba deixando os sapatos no meio do quarto. E o resto é a genialidade de Veríssimo construindo uma cena rica de situações e diálogos. Mas, como eu disse, tudo se perde na brincadeira gratuita com o fato de um ator estar fazendo a personagem feminina. Não sei se foi um problema de direção ou excessos do ator mesmo – que, diga-se de passagem, em outras cenas se saia muito bem. O que sei é que aquilo me incomodou e logo me lembrou uma frase da crítica Bárbara Heliodora que disse: “o principal no teatro é você contar a história, se deter nela”. Parece tão fácil, não é? E muitas vezes o que vemos é o ator ir em movimento completamente contrário a isso, afinal, está detido em coisas desnecessárias que se tornam muletas onde o principal da cena é deixado de lado.
Depois dessa cena que me cansou, eu acabei não terminando de ver a peça. Tive que sair. Eu até assistiria até o final, mas o meu compromisso foi maior. É claro que acho desagradável sair no meio de uma peça. Mas, acreditem, foi inevitável. Vale dizer que eu assisti a uma hora de peça. Um tempo relevante.
O que foi mais bacana é que na semana anterior, eu assisti no Canal Viva a um episódio do Comédia da Vida Privada. E delirei novamente com o programa. Porque coisa boa não tem prazo de validade. E era um episódio com Nanini e Andréa Beltrão, dois atores que admiro bastante. E matei a saudade dos diálogos precisos de Veríssimo. E o Comédia era um programa que tinha uma direção maravilhosa. Tudo era muito bem cuidado. E com atores impecáveis também.
Escrevendo esse texto agora, me deu uma enorme saudade da época que ensaiava com os amigos textos de Veríssimo. Como já disse, o meu próprio espetáculo Casal Consumo é parente próximo da obra de Veríssimo, afinal, eu e Wendell Bendelack somos profundo admiradores dos seus textos. Tanto que nos reuníamos na casa do Wendell e ficávamos assistindo aos episódios do Comédia da Vida Privada e repetindo, junto com os atores, as suas falas, num exercício obsessivo de criação e ritmo (risos).
Vale ressaltar uma coisa muito importante: eu não sou contra homens fazendo mulheres no teatro ou mesmo na TV. Mas é um trabalho que exige muito da direção para não cair em bobas armadilhas. E nem posso ser contra, afinal, no próprio Casal Consumo, o Wendell fazia a esposa, Maria Antônia. Mas no trabalho do Wendeel, tem uma coisa preciosa: como ele é um ator inteligente, ele se detém na história que está sendo contada, na pulsação da cena. Então, representar uma mulher fica sendo mero detalhe. E isso é um dado precioso: quando se faz uma mulher em cena, sendo homem, devemos nos deter na sensibilidade feminina e não no olhar de fora do que é ser mulher. Porque é outra coisa que acontece: quando o homem está fazendo uma mulher, ele a interpreta com uma visão que ele tem disso e muitas vezes acaba na crítica da própria personagem, o que é um ato ainda mais deplorável.
E por fim, quero dizer que quando a gente tem um bom texto nas mãos isso deve ser levado em conta. Já temos a pérola nas mãos. Então, é só colocar a luz adequada que ela brilhará por si só. Agora vou ali ler um pouco de Veríssimo porque deu mesmo uma saudade. A todos vocês, um forte abraço e nos vemos em breve!
quinta-feira, 3 de março de 2011
Bruna Surfistinha - Comentário sobre o filme
Ontem assisti Bruna Surfistinha. Confesso que fui mais pelas reações das pessoas em relação ao filme. E esperava não curtir tanto, porque acho que essas temáticas submundo, underground, geralmente, em termos de cinematografia brasileira, são tratadas de forma plástica, e, porque não dizer, inócua. Eu sou amante das estéticas mais sujas, mais cinema latino-americano, como Madame Satã, Bicho de Sete Cabeças e Baixio das Bestas. No Bicho, por exemplo, o lance da câmera nervosa que acompanha a cena, muitas vezes destacando coisas aparentemente secundárias, é algo grandioso.
Antes de mais nada, vale dizer que não li o livro de Bruna Surfistinha, O Doce Veneno do Escorpião, apesar de ter o livro virtual. Mas já sabia praticamente de toda a história. E lembro até de quando conheci o site de Bruna. Um amigo meu me falou há muito tempo que tinha descoberto um site de uma garota de programa. E me mostrou na minha casa. Eu vi os relatos e perguntei: “Mas essa mulher existe mesmo ou é ‘fake’”. Aí, ele: “Existe sim e é uma menina de classe média que faz programas”. No site tinham fotos mas não dava pra ver a cara dela – se não me engano. O que despertava uma curiosidade maior. O que mais me deixava intrigado é o fato das pessoas reagirem de maneira tão pueril. Elas tem comentado que o filme é chocante, que as cenas são fortes, etc e tal. Mas vale dizer que quando as pessoas querem, elas se tornam excessivamente hipócritas, pudicas e reservadas. Afinal de contas, o que as pessoas esperam ver num filme sobre uma garota de programa? Um conto de fadas a lá Julia Roberts no filme Uma Linda Mulher? (Que pode passar, inclusive, na Sessão da Tarde).
Voltemos ao filme Bruna Surfistinha, do estreante em longas Marcus Baldini. Por ser um filme de um estreante, fiquei com mais receio ainda de assistir ao filme. Mas acho que o interesse pelo filme surge mesmo dessa ideia de que as pessoas serão chocadas com imagens fortes. Elas dizem: “Pois é, essa Bruna Surfistinha fez de tudo e transou com muitos homens”. O espanto delas com a vida de Bruna Surfistinha é quase como que ela tivesse inventado a prostituição. Não quero contrariar as pessoas, mas digo: há tanta gente por aí fazendo isso, de forma deliberada ou não. (risos). Bruna é apenas uma garota que tinha uma vida de classe média, com algumas condições e recursos, mas se sentia vazia. Isso é o que mostra o filme e, pelo que sei, também está no livro.
E o filme começa com Deborah Secco, na pele de Bruna, em frente ao computador, realizando uma dança sensual, ameaçando um streap tease. A batida da música dá o tom da cena. Mais óbvio, impossível. Mas segui no filme. E, assim como Cazuza (filme de Sandra Werneck), cansa-me um pouco a linearidade do filme. Venhamos e convenhamos, a história já se sabe qual é, então, já fica difícil surpreender. Mas eu esperava algo mais surpreendente. E segundo pesquisas sobre a história de Bruna, no livro ela fala sobre pequenos furtos que fazia, principalmente, dentro de casa, e que, por isso, a família que o adotara, começa a ignorá-la. O ápice da sua “compulsão” por roubos foi o lance de pegar um colar e brincos caros de sua mãe. E isso é mostrado, de forma bem sutil, quando a mãe pergunta sobre eles para a filha. Detalhe: a filha está no orkut – que no filme essa rede social tem outro nome - vendo uma foto que um colega do colégio postou, onde ela lhe faz um sexo oral – uma cena também meio que ‘an passant’. O mais risível é que a mãe entra no seu quarto repentinamente, a filha se assusta, mas fala com a mãe com a página aberta. Qualquer menina temeria o fato de a mãe ver uma cena dessas. Ela, não. Conversa com a mãe, dizendo que não sabe das jóias, com a página aberta – tudo bem que não dá para identificar tanto assim que é ela, afinal, vê-se apenas uma cabeça na direção do “dito cujo” do colega do colégio (mesmo assim, ela vai ser hostilizada pelos outros colegas).
Esse lance da “compulsão” por roubos nem é muito valorizado no filme. Apenas é representado nesse episódio das jóias da mãe ou quando ela está na casa do colega, depois de ter sido quase forçada a fazer sexo oral nele e sai, aborrecida, pegando um objeto da casa. Mas isso é apenas um detalhe no filme (que, por ser “an passant” demais, causa-nos apenas o riso). Mais tarde, Bruna vai virar o bicho, quando, na casa onde começou a fazer programas, percebe que roubaram suas coisas, inclusive, as jóias da mãe. E esse é um dos melhores momentos de Deborah Secco: quando ela entra no quarto e força a menina suspeita do roubo a lhe contar quem roubou suas coisas. E isso pode até representar o ritual de passagem da personagem “patricinha” para a garota descolada que faz sexo em troca de dinheiro, enfrentando de corpo e alma as intempéries da vida.
Como o diretor frisou diversas vezes, o filme não é uma biografia simplesmente, mas uma trajetória emocional. Então, ele pegou elementos importantes da vida de Raquel Pacheco (a Bruna Surfistinha) para desenvolver a sua história. Então, temos na tela uma visão ficcional de uma garota de programa. Deborah Secco realmente se doa para a personagem. Mas, com certeza, se fosse uma atriz desconhecida, acho que o impacto seria maior. Porque, queiramos ou não, Deborah é uma atriz que, digamos, já é meio “manjada” da mídia. O que não tira a força da sua entrega. E, talvez, a escolha dela seja também a busca por uma notoriedade maior para a película. O que já se está conseguindo.
Mas o filme tem um elenco afinado. A família da Bruna Surfistinha é composta por atores não “manjados” que dão conta do recado. As próprias amigas de “labuta” de Bruna também não são tão conhecidas assim. Com exceção de Fabíola Nascimento – que já tinha feito, inclusive, uma outra prostituta no maravilhoso filme Estômago, de Marcos Jorge. E vale dizer que Fabíola, mesmo já tendo feito outra prostituta, encanta, mesmo assim, na pele de Janine. Ela é uma atriz maravilhosa que dá contornos surpreendentes na personagem. É só conferir a cena em que ela e as amigas estão no salão de beleza. A cena está praticamente toda nas mãos de Fabíola que não desperdiça nenhum segundo da sua atuação. Começando com uma brincadeira de encenações de gemido até o ápice, onde ela, revoltada com a reação das clientes com aquilo tudo, sai com as amigas, esbravejando, e esfregando o seu cartão de visita pelo corpo. Mas uma bela atuação dessa jovem atriz.
Deborah Secco pode ter feito o seu melhor papel mesmo. Que tem ares de Beth, A Feia. Afinal, ela começa o filme como uma desengonçada menina, quase como o patinho feio do colégio, até chegar a sexy girl garota de programa Bruna Surfistinha. E vale também dizer que a Bruna teve muita sorte em sua vida. Porque ela não é assim uma das mais gostosas prostitutas que o Brasil já teve. Mas aproveitou a onda e, principalmente, teve a melhor estratégia de marketing ao criar um blog, narrando as suas histórias. Isso foi a sua tacada de mestre. E mais tarde, com o livro, a sua história começou a causar burburinho. Tanto que hoje virou filme. Sem ser da Brasileirinhas. (Risos)
Não posso dizer que o filme de Bruna é ruim. Tem muita coisa interessante e humor também. O próprio Cássio Gabus Mendes, que geralmente é repetitivo em suas atuações, surpreende na pele do cliente. Tem uma atuação sóbria e convincente. O filme não tem uma plasticidade monótona. Chega a ser “sujo” em diversos momentos. E isso é uma qualidade. Mas até a sujeira do filme é “limpinha”. Não chega a ser como o maravilhoso Madame Satã, mas tem um princípio de proposta de linguagem. E uma das belas fotografias do filme é quando Deborah caminha com umas sacolas pela cidade, quando o blog já está fazendo sucesso, e temos frases projetadas nos prédios espelhados, quase como se fosse uma tela de computador. Uma rara beleza no filme.
No mais, é o dia a dia de uma garota de programa, contada de forma quase que excessivamente linear. Começa-se com Bruna como uma garota normal, tímida, até se metamorfosear em garota de programa e mais tarde a decadência dessa vida, alavancada pelo uso de cocaína. É isso, simplesmente. Sem surpresas. O grande burburinho do filme é o fato de ter muitas cenas de sexo. Quer dizer, o fato de as pessoas ficarem chocadas com isso. Mas o filme não é sobre uma garota de programa? Mais uma vez, pergunto: Elas esperavam o quê? Que a garota de programa estivesse jogando War, enquanto masturba os seus oponentes?
O fato mesmo é que o filme não é tão chocante assim, pelo amor de Deus! Quem diz isso, não viu os filmes de Almodóvar, bem mais surpreendentes, como A Lei do Desejo, onde o galã Antônio Banderas, em começo de carreira, protagoniza cenas mais ousadas de sexo. Sinceramente, chocar por chocar, fico com a Dama do Lotação, de Neville de Almeida. Surpreende-me muito mais.
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