
Altas Horas!
Tem algumas coisas que me irritam bastante. Como ouvir algumas pessoas falarem de determinadas coisas que não sabem. E principalmente quando dizem isso em um veículo como a televisão, que deveria servir como fonte de informação e formação dos indivíduos. Eu, por exemplo, sempre vi muita televisão. Sou da geração criada e educada pela Dona TV: essa mulher meio quadrada, mas antenada com o mundo.
Mas, enfim, como falo de TV, devo falar que sempre curti muito programas de entrevistas, ouvir a opinião das pessoas que admiro ou mesmo passar a admirar pessoas que nunca tinha visto dar opiniões que, de repente, agradam-me
Na TV aberta, um dos programas que curto bastante, principalmente, porque sempre varo a noite de sábado zapeando na TV, é o Altas Horas. Porque admiro o Serginho Groisman e o acho um grande comunicador. E ao programa vão pessoas consagradas e algumas novas celebridades, pessoas que estão se consagrando no momento por causa de algum trabalho, geralmente na TV.
Aí, então, começo a me aproximar do assunto que suscitei no primeiro parágrafo. Nesse sábado que passou, dia 21/03, pra ser mais exato, na madrugada de sábado para domingo, parei para assistir um pouco do Altas Horas. E, dentre os entrevistados da noite, estava a atriz Ísis Valverde, que interpretava a Rakelly em Beleza Pura. Até aí, tudo bem. Parei para vê-la dar entrevista, até porque não conheço muita coisa do trabalho dela, a não ser na referida novela que, diga-se de passagem, das coisas que vi, achei bem interessante. E sempre procuro me surpreender com alguns desses novos talentos da TV, até para saber se eles tem alguma coisa a falar. Enfim, lá pelas tantas, alguém da platéia pergunta a ela como ela começou. E a nossa “brilhante” Rackelly – ops, Ísis Valverde – fala que começou no teatro, porque a mãe tinha um grupo e tal. E diz – aí vem a bomba – que nesse começo no teatro era como o “teatro pobre” de Grotowski, sem maquiagem, sem figurino, sem cenário, tudo meio improvisado. Aí, soou meu alarme – PÉÉÉÉÉM. Primeiro que ela jogou o nome de Grotowski assim numa frase como uma coisinha à toa. E eu logo pergunto: e a platéia entendeu quem é esse Grotowski? Aí emendei em outra indagação: se nem ela mesmo sabe quem é Grotowski, como pode falar sobre ele? Porque, segundo a sua afirmação, que eu citei aqui, sempre me irritou a falta de informação e cultura desses jovens atores, principalmente os “criados” na TV. E Ísis mostrou a sua ignorância em relação ao citado “Grotowski”, cometendo o equívoco que grande parte de jovens atores ou pseudo-atores comete, isso levado pela interpretação errônea de uma obra desse “Grotowski”, intitulada: Em Busca do Teatro Pobre.
Então, quer dizer que nossa atriz, repleta de fãs (como ela mesmo disse), acredita que Grotowski, segundo a análise de sua frase, é sinônimo de um teatro sem recursos, quase amador, como se o ator, por não ter dinheiro, fizesse as coisas assim nas coxas, sem muito cuidado ou zê-lo, por causa das dificuldades financeiras ou mesmo conhecimento na área, digamos assim. PÉÉÉÉÉM – meu alarme não parou de tocar.
Primeiro, Ísis não é a primeira e nem acredito que será a última atriz a cometer esse equívoco ao falar sobre o “teatro pobre” de Grotowski. Pra começar, devemos lembrar ou saber – principalmente quem é ator, que Grotowski é um diretor polonês, falecido em 1999, considerado como um importante “treinador” de atores do século XX. Para ele, a figura central do trabalho teatral é o ator. E ele trabalhava justamente a questão psíco-física do ator. Então, para ele, seria necessário afastar qualquer espécie de “muleta” que o afastasse do seu trabalho principal na cena. Por isso, nesse processo do ator – no treinamento com Grotowski – faz-se muito o uso dos termos “ator santo” e “teatro ritual”. Essas duas imagens – digamos, metáforas - são o cerne da compreensão do que ele pregava como “teatro pobre”. E, tenham certeza, não tem nada a ver com teatro sem recursos. Isso é uma visão errônea. Era um teatro centrado na figura principal do ator que, segundo Grotowski, tinha que procurar tudo que seria extremamente necessário e verdadeiro na cena. Com o treinamento proposto por ele, buscava-se o que chamamos de gestos essenciais, vindos de treinamentos constantes, baseado, sobretudo, nas ações físicas. Segundo esse raciocínio, podemos encontrar na sua obra, afirmações que corroboram com essa tese, por exemplo, ele defendia a seguinte coisa: "como o material do ator é o próprio corpo, esse deve ser treinado para obedecer, para ser flexível, para responder passivamente aos impulsos psíquicos, como se não existisse no momento da criação - não oferecendo resistência alguma. A espontaneidade e a disciplina são os aspectos básicos do trabalho do ator, e exigem uma chave metódica”.
Ainda interpretando o termo “pobre” associado ao seu trabalho, podemos pegar a seguinte afirmação que clarifica essa idéia: “O pobre em seu teatro significa eliminar tudo que é desnecessário, deixando um ator ou atriz vulnerável e sem qualquer artifício. Na Polônia, seus espetáculos eram representados num espaço pequeno, com as paredes pintadas de preto, com atores apenas com vestimentas simples, muitas das vezes toda em preto”.
Então, prezada Ísis, como você pode ver, o “teatro pobre” de Grotowski não tem nada a ver com o seu começo de carreira na grupo da sua mãe. Por isso, digo: afirme o que você sabe. Fale de televisão. Teatro é algo sagrado que deve ser entendido como tal. E, principalmente, em se tratando de Jerzy Grotowski que tinha um trabalho muito específico e profundo.