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sexta-feira, 1 de setembro de 2017


A VOLTA DOS TRIBALISTAS - por Raul Franco

Eu esperei a volta dos Tribalistas, sentando em frente a TV, igualmente como fiz em 2002. E, se não me engano, o especial de 15 anos atrás foi bem mais tarde e eu estava lá, acompanhando tudo. Ambos na Globo. 

Em 2002, de cara, vi sucesso naquela música Já sei namorar - coisa que realmente aconteceu: a música arrebentou e todo mundo sabia de cor e cantava ininterruptamente.

Lembro que o disco de estreia foi bastante criticado: uns diziam que era um golpe de marketing, outros diziam que o som deles estava engessado em um formato, como se fosse música pensada para fazer sucesso muito mais do que pensada com o coração, coisas assim. O certo é que o disco também foi um fenômeno e ninguém passou indiferente a ele. Uns, por outro lado, amavam e achavam as canções "gracinhas", "graciosas", "lindinhas". Eu, como fã do trio, gravei o especial de 2002 em um VHS (olha como faz tempo!) e ouvia um CD pirata que minha ex-namorada havia comprado. E mais tarde, cheguei a fazer uma pantomima da música Velha infância. 

Mas, 15 anos depois, o que os Tribalistas trazem de novo? Hum, bem difícil essa questão. Em tempo de pouco inventividade e ousadia na música popular brasileira (eu odeio este termo), os Tribalistas poderiam ser um sopro de esperança. No entanto, eu me senti em 2002, ouvindo mais do mesmo. Podem dizer: "Mas é o estilo deles". Só que se passaram 15 anos (!), um mundo de coisas aconteceu, transformações no mundo em todos os sentidos, evoluções tecnológicas e tal. E sei que eles podem mais. Ou podiam mais (será que a criatividade se esgotou?).

Definitivamente, os Tribalistas não são os salvadores da música popular brasileira - tem coisa ainda que soa bem mais interessante e com "tesão". Falo tesão, porque ao ouvir todas as faixas, senti um certo "gozar de pau mole", como fala Lobão. Nenhuma música me inebriou e me deu um certo regozijo essencial que me despertaria de algum sono profundo. Algumas achei interessante o som e a estrutura, como Diáspora (a melhor do disco). E a dos "peixinhos" achei bonitinha. 

Posso falar dos Tribalistas, ou melhor, sinto-me a vontade quanto a isso, porque sempre fui fã do Arnaldo Antunes, principalmente; de comprar os discos, ir a shows. Até o último CD, Já é, eu comprei (o que é algo bem estranho hoje em dia: comprar CD). E Marisa Monte sempre me encheu os ouvidos. O seu disco Verde, Anil, Amarelo, Cor-de-rosa e Carvão é um disco incrivelmente belo. E o Carlinhos Brown sempre o respeitei como músico. Volta e meia, os 3 se encontravam em parceiras para outros artistas, inclusive. São responsáveis por grandes hits.

Mas, voltemos a noite de ontem. Ao ouvir tudo, pensei que as canções do novo trabalho caberiam tranquilamente no primeiro e único disco do grupo, apesar de serem menos criativas, na minha opinião. E a quantidade de músicas também é menor do que o disco de estreia - de repente eles suaram muito pra chegar a esse número de canções para compro um disco e um especial para a Globo. A coisa é tão "mais do mesmo" que em um dado momento Marisa Monte diz: "Falta inventar uma palavra. No primeiro inventamos algumas". Eles ficam criando e Arnalda manda: "Tribalivre". E eles fecham com a palavra! Ou seja, nem eles escondem que é repetir uma fórmula mesmo. É algo mercadológico mesmo. É pra soar igual mesmo. Talvez, não seja música feita com o coração, mas música feita para o cifrão (rsrs). 

O que sei é que os três já funcionaram muito melhor em suas carreiras individuais. E deve ser isso, chegou um momento da vida que eles pensaram: "Vamos fazer um barulhinho bom de novo (alusão a um disco de Marisa), o Brown bate umas coisas aí, a gente escreve, Arnaldo declama algo no meio e a gente fatura". 

Os tempos são outros. Mas os Tribalistas foram congelados, descongelaram este ano e eles fizeram um novo disco, igualzinho. 

Você acha que tá ruim? Pode ficar pior, hein? Pato Fu vem aí com Música de Brinquedo 2! Com certeza, repetindo a fórmula que já deu certo (?) no outro disco que fizeram. Nada de novo no front! 

segunda-feira, 1 de maio de 2017


Os bons nos deixam!

Preciso falar de Belchior.

Minha ligação com ele é bem intensa. Inexplicável. Desde quando eu o ouvia criança. Os seus versos sempre me chamavam atenção... Coisas como "Tava mais angustiado do que um goleiro na hora do gol", "Se você vier me perguntar por onde andei no tempo que você sonhava/ De olhos abertos, eu lhe direi: amigo, eu me desesperava" e "Você não sente e nem vê, mas eu não posso deixar de dizer, meu amigo: que uma nova mudança em breve vai acontecer".

Por conta da canção Velha roupa colorida, quis ler Poe, que ele citava na letra. O grande Edgar Allan Poe e seu Corvo.

E lembro de uma peça que meu pai escreveu sobre juventude e tinha uma rubrica interessante: "ao som de Como nossos pais em 45 rpm". Eu sempre ficava imaginando esta música em ritmo acelerado como meu pai sugeria.

Pois bem, Belchior seguiu me acompanhando. Como Renato Russo disse uma vez que a relação dos fãs com as canções da Legião Urbana era como se elas fossem amigas, assim considero as canções do Belchior que sempre pareciam dialogar comigo, me acalentado.

Quando tomei uma grande decisão na vida, que foi morar no Rio de Janeiro, em 1997, coincidentemente os Engenheiros do Hawaii lançaram uma versão da canção Alucinação, do Belchior (cujo disco do mesmo título, lançado em 1976, meu padrasto tinha e que eu não me cansava de ouvir).

O que sei é que Alucinação seguiu me acompanhando naquele ano de 1997. Os versos da canção me disseram e me dizem muito, até hoje. "Eu não estou interessado em nenhuma teoria/ em nenhuma fantasia nem no algo mais (...) amar e mudar as coisas me interessam mais, muito mais".

Em 1998, eu estava no outro apartamento que eu morava em Copacabana, muito deprimido, longe da família que morava em Belém, sem dinheiro e com saudade de um grande amor... Acho que era uma tarde de julho, pelo frio que fazia. Resolvi colocar um CD do Belchior para tocar. Passei por canções como À palo seco, sentindo o coração transbordar... E pensava na minha condição de estrangeiro no Rio de Janeiro, de um cara do Norte que vem pra Cidade Grande... Aí toca Retrato 3 X 4, onde os versos me atingiram em cheio... Parecia que ele tava sendo o amigo que eu precisava naquele instante:

"Eu me lembro muito bem do dia em que eu cheguei
Jovem que desce do norte pra cidade grande (...)
Pois o que pesa no norte, pela lei da gravidade,
disso Newton já sabia! Cai no sul grande cidade (...)
Mesmo vivendo assim, não me esqueci de amar (...)
mas a mulher, a mulher que eu amei,
não pode me seguir ohh não (...)
A noite fria me ensinou a amar mais o meu dia
e pela dor eu descobri o poder da alegria
e a certeza de que tenho coisas novas
coisas novas pra dizer
a minha história é ... talvez
é talvez igual a tua, jovem que desceu do norte
que no sul viveu na rua
e que andou desnorteado, como é comum no seu tempo
e que ficou desapontado, como é comum no seu tempo
e que ficou apaixonado e violento como você
Eu sou como você. Eu sou como você. Eu sou como você
que me ouve agora. Eu sou como você. Como Você".

Não preciso nem dizer o quanto chorei naquele momento... O cara ali, dizendo as coisas que eu precisava ouvir. Batendo certeiro na minha dor!

Pois é, choro agora um pouco mais... Lembrando do artista Belchior, um cara que saiu do Ceará e dormiu nas ruas do sudeste, mesmo assim sonhou, acreditou e fez com que a sua poesia ecoasse e permanecesse viva até os dias atuais, inspirando outros novos jovens. "PRECISAMOS TODOS REJUVENESCER"

Valeu, Belchior, obrigado por tudo!