Ontem foi a estreia de “VITAL - O MUSICAL DOS PARALAMAS”. Eu estava com uma expectativa bem grande, pois os Paralamas é uma banda que fez e faz parte da minha vida. Cresci com as canções e elas me trazem boas memórias. Então, estava bem curioso para ver o modo como seria abordada a história. E, de cara, digo, depois de conferir a estreia: o musical está bem interessante e divertido. E tem muitos acertos. Fora que a trilha já é algo que contagia a todos.

A primeira coisa que eu destaco é a interpretação de Rodrigo Sala que faz o Herbert Vianna. O cara praticamente incorporou os trejeitos de Herbert. E tanto a fala como o canto são surpreendentes. E fisicamente também lembra muito o vocalista. Em alguns momentos parece que estamos vendo o próprio. Uma coisa que arrepia de tão verossímil que é. O João Barone é interpretado por Franco Kuster e o Bi Ribeiro é interpretado por Gabriel Manita. E vale dizer que o elenco é muito bom. Não só cantando como interpretando. Vemos uma química especial entre todos em cena. O ator Pedro Balu que faz o Vital - primeiro baterista dos Paralamas - é fabuloso. Ele também narra o espetáculo em diversos momentos e tem a cena em que ele interpreta o Gilberto Gil, que é divertidíssima, quando citam a composição “A Novidade", que é assinada por Herbert e Gil.
A escolha que fizeram para contar a história da banda parte do acidente do Herbert Viana em fevereiro de 2001, quando o ultraleve que ele pilotava caiu em Mangaratiba. No acidente, a sua esposa Lucy veio a falecer. Então, o que vemos a seguir no espetáculo praticamente é como se fossem flashes da memória do Herbert, já que esta foi abalada em função do acidente. Isso acaba justificando uma porção de saltos na história. E é quase como uma licença poética. E o tempo todo a cena se volta para o quarto de hospital onde está Herbert se recuperando. Uma parte interessante desses momentos é o contato que o Herbert tem com um paciente, que teve uma perna amputada por conta de um acidente, e ele acaba falando da sua paixão pela música e como se dá o seu processo, já que este paciente - muito bem interpretado por Herberth Vital (olha a coincidência do nome do ator!) - tem interesse em saber como nascem as canções. E isso já é um mote para Herbert falar sobre as suas paixões e desilusões amorosas. Aí entra uma primeira paixão, que é por uma garota chamada Alice. Eu acredito que é uma referência a Malu, que o Herbert namorou antes de Paula Toller, e que era a empresária do Kid Abelha. E para quem Herbert fez Meu Erro (desde já eu falo que o romance com Paula não é citado). E tem o momento em que o Herbert está lá sofrendo pela tal da Alice e entra a canção “Por Quase Um Segundo". Nessa hora eu levei um susto. Porque “Por Quase um Segundo" é uma canção feita para Paula Toller. E a peça estava ali no contexto de 1985. “Por Quase Um Segundo" é do disco “Bora Bora", de 1988. Mas… é aí que entra a questão que eu falei antes: tudo é como se fosse o Herbert tentando recuperar a sua memória. E até o Bi Ribeiro e o João Barone comentam situações, como se estivessem também montando esse quebra-cabeça da história dos Paralamas. E isso acaba justificando realmente tudo que se passa na peça e dá uma dinâmica interessante.
Como eu disse também, o musical tem diversos acertos. No entanto, algumas coisas me incomodam por uma alta exigência da minha cabeça (risos). Lembro que quando eu vi o musical sobre o Cazuza, a banda, no caso o Barão Vermelho, era dublada o tempo todo - atores apareciam com os instrumentos, mas tinha uma banda tocando. E quando eu vi aquelas baquetas no ar, do ator que fez o Guto Goffi, deu-me um frio na espinha. Porque eram baquetas que não estavam sincronizadas com o som que a gente ouvia. Tipo, a mão direita quase nunca estava em sincronia com a caixa, por exemplo. E com o musical dos Paralamas acontece isso. Eles tem os seus instrumentos, mas tem uma banda tocando. Tanto que em vários momentos, eu olhava para a banda. É até engraçado e divertido quando apresentam o João Barone e o Bi e o Herbert pedem para ele mostrar o que ele sabe tocar. E o João Barone ergue as baquetas e faz diversos sons, com as baquetas no ar. E como são sons variados, com diversas viradas, o ator dá conta disso e, digamos, soa até criativo. Mas aí, mais a frente, em vários momentos, vi as baquetas soltas no ar. E eu tive que forçar a imaginação para comprar a parada. Até porque é um musical sobre uma banda que tem a melhor “cozinha” do rock nacional. E o batera não é nada mais nada menos do que João Barone. Mas, ok… vamos dizer que isso não compromete. E eu até entendo que pela movimentação no palco seria difícil ter uma bateria se deslocando, até porque a bateria do João Barone tem muitos elementos.
Outra chatice minha. No momento do Rock In Rio de 1985, o João Barone e o Bi Ribeiro aparecem de short. O Herbert não. Sendo que, se eu não me engano, o ator que faz o José Fortes, empresário dos Paralamas, comenta que a banda ganhou a todos pela energia, pela competência e ainda usando short. Como se fosse, tipo “somos bons mesmos e vamos tocar com esse figurino de praia”. Afinal, o rock carioca foi rotulado no início como rock de bermuda. Pois bem… na verdade, o único que estava de calça no Rock in Rio de 1985 era o Bi Ribeiro. Os outros, de short. E eu queria muito ver o ator que faz o Herbert também de short. Reproduzindo de modo fidedigno o que foi aquele momento tão simbólico e importante na trajetória da banda. Afinal, eles reproduzem o lance de terem colocado umas palmeiras no palco (que pegaram no camarim), porque era um palco gigante e eles queriam preencher com algo que parecesse um cenário. E tem também o discurso potente do Herbert, alfinetando a galera que vaiou artistas brasileiros no evento. Enfim, a minha chatice queria ver o Herbert de short (risos). Fiquei pensando: “não dava para pôr uma calça que tirasse uma parte e virasse uma bermuda? Colocando tipo um velcro na parada?” Parece loucura, mas eu penso essas coisas (mais risos). Interessante que me incomodei com isso, e, por outro lado, não me importei com o fato de o ator que faz o Herbert ser canhoto e o Herbert original não. Aí também já seria chatice demais. Também não é para tanto (risos).
Outra coisa, que tem a ver com essa estética de musicais. Sempre vamos ver uma parede dos atores no fundo, cantando as músicas e fazendo uns vocais. Sempre penso: “Não tem como fazer diferente isso não?”. E como é musical, tem alguns momentos que dão destaque para as pessoas mostrarem que cantam… que é o caso da cena da Vovó Ondina. Do nada, a Vovó solta a voz e vira quase como uma Neo Punk, dançando enlouquecida e gastando o seu canto. Diga-se de passagem, a atriz canta muito. Mas nem sei se gostei disso (rsrs). Sempre acho meio exagerado. Até porque estamos falando do musical dos Paralamas do Sucesso, cujo vocalista é bastante questionado em relação ao seu canto. O próprio Herbert brinca com isso. Ah, tem também em “Dos Margaritas” uns vocais preenchendo a música que não me agradou tanto. Eu preferia ouvir a música como ela é. Acho a canção tão potente por si só para ter algumas firulas meio que desnecessárias. No entanto, não sou o bambam do musical. Falo com paixão mesmo de quem curte muito a banda e pensa junto qual seria a melhor escolha.
Mas tirando as minhas chatices, o espetáculo tem muito mais acertos do que erros. É muito legal como retratam o momento dos Paralamas no mercado Argentino, apresentando o Charly Garcia e o Fito Páez. Achei um plus interessantíssimo. E tem também o momento que Herbert retorna aos palcos, participando do show de Fito Páez no Canecão. Detalhe: eu presenciei ao vivo este momento tão emocionante. O momento do encontro do Herbert com a Lucy é lindo. E todo o desdobramento da história também. A cena com a canção “Alagados” é incrível. O momento do “Vamo Batê Lata” é delirante e traz também uma referência estética e sonora de outra artista, a Fernanda Abreu. Uma ótima sacada. E o lance da troca que o Herbert tem com o paciente amputado, serve também para se falar sobre inclusão social e da busca de melhorias para quem tem dificuldade de locomoção. Isso trouxe a visão real de quem passa por isso e proporcionou uma reflexão necessária e importante. Um grande acerto no espetáculo.
No mais, vale muito a pena conferir “Vital - o musical dos Paralamas”. É divertido, emocionante e com clima de show. E eu, como um super fã dos Paralamas, lógico que ia prestar atenção em cada detalhe e sei que não daria para contar tudo, tim-tim por tim-tim, sobre a história da banda. Afinal, são mais de 40 anos de estrada. Por exemplo, o show de Montreux não teve citação. Um show importante e que resultou no disco D, de 1987. Mas as canções estavam lá, mostrando a força de uma banda, que podemos dizer que é a uma das mais bem sucedidas do rock brazuca. Como foi dito no final do espetáculo, teve um jornalista que questionou o fato de fazerem um musical sobre os Paralamas. Que bom que o espetáculo mostrou, na prática, que realmente tinham uma boa história para contar e que, com toda certeza, os Paralamas merecem uma homenagem como essa. Não é à toa que a banda já tem alguns documentários contando a sua trajetória (alguns!!! e eu já vi todos). Então, valeu todo o trabalho que tiveram para montar esse musical, que, sem sombra de dúvida, empolgou a todos que estavam presentes. Deu pra ver a alegria, ao final, de toda a equipe envolvida, confirmando que acertaram a mão ao realizar essa homenagem especial aos Paralamas. E que grande acerto a escolha do título: VITAL! Que tanto faz referência ao primeiro baterista dos Paralamas (que, inclusive, nos deixou em 2015 e isso é até representado simbolicamente no espetáculo) quanto ao fato de ser algo imprescindível, de suma importância, e que acaba sendo um grito de VIDA. Viva Os Paralamas e uma salva de palmas a toda equipe envolvida no espetáculo.
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Idealizado pelo produtor e diretor Gustavo Nunes (Turbilhão de Ideias) e por Marcelo Pires (escritor e diretor da Ideia da Silva), que assina a colaboração de texto nas mãos de Patrícia Andrade, o musical tem direção artística de Pedro Brício


