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segunda-feira, 4 de abril de 2011

Questões sobre Teatro



Mexendo em um cd velho, com arquivos meus, deparo-me com umas questões sobre teatro. E lendo a pequena  entrevista, tento me recordar quando respondi a essas questões. E recordo que foi o ano de 2006. Uma amiga minha, Mariana, pediu-me para responder a algumas questões para um trabalho seu na faculdade de artes cênicas. E como achei bem legal rever isso, disponibilizo aqui para vocês, porque mesmo tendo passado alguns anos, muito do que está respondido aqui, tem a ver com o meu pensamento sobre as artes cênicas.

Segue, na íntegra, as perguntas e respostas:


  1. Fale um pouco da sua trajetória no teatro e sobre o que você está fazendo agora
- Eu comecei a fazer teatro bem novo, no colégio, com 9 anos, em Belém do Pará. Foi uma peça chamada Saci Pererê, no qual eu fazia o próprio. Não tinha fala. Tinha uma narração e eu entrava saltando com o cachimbo na boca. Gostei muito. Depois continuei a fazer peças no colégio até entrar para o grupo de teatro do próprio colégio, em 1985, quando eu estava com 11 anos. E fizemos uma peça chamada Circo de Brinquedos que foi uma ótima experiência, pois eu fazia um leão medroso e que em um certo momento eu dublava uma música dele. E tinha tudo a ver comigo, pois desde pequeno eu fazia dublagens de artistas que eu gostava. Até hoje lembro de muitos detalhes do processo. Inesquecível, pois foi um primeiro contato com todas as etapas de uma produção de um espetáculo teatral. E depois disso não parei mais. Continuei fazendo teatro direto. Espetáculos diversos e também encenação de poemas. Em 1997 eu vim para o Rio de Janeiro e passei a me dedicar direto ao teatro, fazendo espetáculos infantis e outras coisas. Em 1999 entrei para a Uni-Rio, onde fiz artes cênicas - interpretação. Dentre as peças que fiz estão obras como Inspetor Geral, de Gogol; Capitães de Areia, de Jorge Amado; Cafute e Pena de Prata, de Raquel de Queiroz; Nossa Cidade, de Thorton Wilder; O visitante, de Hilda Hilst; O último Carro, de João das Neves; Don Juan, de Molière e outras. Além de ator, eu também escrevo e dirijo. Acabei de dirigir agora um espetáculo de humor chamado Co-média Pão com Manteiga. E também voltarei em cartaz em agosto com a peça Fama Zero escrita e dirigida por mim. Estou em cartaz como ator na peça Tubo de Ensaio, no Candido Mendes.      


2. Até agora qual trabalho você mais gostou de fazer? Porque?
- Muitos trabalhos são especiais. Têm a sua importância. Amei fazer Don Juan, por exemplo, porque era o personagem que eu mais queria fazer na vida: Sganarelo, criado de Don Juan. Por ter esse desejo, acho que tornei a experiência marcante. Na Cama com Tarantino foi outro trabalho muito especial porque brincava com a estética pop do diretor Quentin Tarantino. E eu fazia um personagem chamado White que era um assaltante de banco. Esses dois trabalhos foram extremamente interessantes para a minha carreira. 

3. E o mais inusitado?
- Acho que entre os mais inusitados estão aqueles esquisitos, tipo animação de festa infantil. Não são bem trabalhos teatrais, mas são formas de descolar um troco. Teve uma festa na Barra que eu fiz o Tarzan. Aí o organizador da festa perguntou se eu poderia escalar o muro da casa para ter uma entrada triunfal. Eu topei. Ralei todo o braço, mas foi divertido. Fiquei de tanga a festa inteira, mas todos gostaram. E eu voltei pra casa com dinheiro na mão, rindo de tudo. Que coisas fazemos nessa vida, né???!!!

4. O que você mais admira em um ator?
- Admiro muito o ator versátil. A capacidade de criação. De aprimoramento. De olhar atento para a alma humana e conseguir extrair percepções para serem usadas na hora de se criar um personagem.

5. Em quais atores de teatro você se espelha?
- No começo de carreira eu me espelhava muito no Diogo Vilela. Ele tinha uma interpretação visceral que me fascinava. Algo meio nervoso e tal. Mas isso muito em função da TV Pirata que eu assistia. No teatro o vi em “Solidão, a comédia” e fiquei maravilhado. Era um monólogo fantástico. E antes disso, muito me chamava atenção o Ney Latorraca, por causa das suas interpretações nas minisséries Memórias de um gigolô, Rabo de Saia e na novela Um Sonho a Mais. Hoje curto muito o Marco Nanini. 

6. O que você mais gosta de fazer, atuar, dirigir ou escrever?
- Pergunta crucial! Se eu só pudesse ficar com uma coisa, eu ficaria escrevendo. Se pudesse fazer duas coisas, eu escreveria e dirigiria. Por último, atuar, por incrível que pareça.

7. Você possui uma linha de trabalho ou procura diversificar
- Acho o meu trabalho muito específico. Os trabalhos que escrevi e dirigi tem muito a minha cara, ligada a comédia. Mas já fiz coisas bem autorais ligadas ao drama, a uma coisa mais profunda e dolorosa que eu também adorava fazer. Atualmente tenho estado ligado a comédias, a espetáculos de esquetes e tal. Mas estou com vontade de fazer outras coisas mais performáticas, com outras linguagens.

 
8. A maioria dos atores de teatro fazem algum trabalho paralelo a arte para poderem se sustentar,  você acha que talvez falte incentivo ao artista brasileiro?
- Muito. Falta um monte de coisa. O artista brasileiro não tem muita formação. Ou melhor dizendo, a formação é muito precária. A gente aprende muitas coisas, às vezes, na prática. Ou fazendo ou olhando os outros fazendo. Por isso que gostaria de sugerir uma lei que permitisse também que o ator pagasse meia entrada no cinema. Porque o cinema também serve como forma de estudo para nós. O que o artista brasileiro deve fazer é correr mais atrás, se preparar da melhor forma possível. Porque no Brasil as coisas são muito precárias em diversas áreas, ainda mais no plano artístico.
 
9. O que é fundamental para um ator?
Observação acima de tudo.  Buscar informação sempre. Cultura geral nunca é demais. Por isso é importante ampliar o leque de estudo porque nunca se sabe o personagem que irá se encontrar pela frente. 

10. Como vc vê o teatro na educação brasileira?
- Tem uma importância fundamental. Eu quando estudava Ciências Sociais, desenvolvi um projeto chamado O teatro e a antropologia – uma perspectiva de educação, que visava tratar de temáticas antropológicas através do teatro. Foi uma experiência muito interessante que teve um efeito positivo. Porque abre o foco de observação. Você consegue apreender mais coisas porque sai um pouco da sala de aula. Assim como projetos teatrais dentro da escola são importantes, porque trabalha a formação da platéia que é muito importante.   

11. Você ja fez algum tipo de projeto social? Como foi?
- Já trabalhei com projetos ligados a prefeitura do Rio de Janeiro, onde fiz alguns espetáculos encomendados com o intuito de festejar datas comemorativas. Foi o caso do espetáculo Assim Descobriram o Paraíso que era um espetáculo que falava, com muito bom humor, da chegada dos portugueses aos Rio de Janeiro. Esse espetáculo foi apresentado no Complexo do Alemão, Rocinha e outros lugares. A experiência foi boa porque eram comunidades carentes que responderam muito bem ao espetáculo. O meu outro espetáculo, chamado O mundo mágico dos livros também fez o circuito de bibliotecas populares. E foi interessante porque é um espetáculo que incentiva a leitura. E, ao final, sempre distribuíamos livros.

12. Diga pontos positivos e negativos de se fazer teatro no Brasil?
- Antes de mais nada, acho que todo mundo deveria fazer teatro, não só para virar ator, mas para desenvolver o espírito de grupo, de realizar jogos de criação e tudo. É uma boa terapia que nos permite aprender mais sobre nós mesmos. Isso é um ponto positivo, independente de ser no Brasil ou qualquer outro país. Fazer teatro também é bom porque nos coloca em contato com os mais diversos tipos de pessoas e não temos o problema de rotina, porque em cada grupo o processo é diferente. Agora o negativo é a velha coisa: é muito difícil sobreviver da profissão. Se não formos um ator da Globo, passaremos fome. Ser ator só de teatro no Brasil é muito complicado. Não dá pra sobreviver.


13. Você estava com uma peça de Nelson Rodrigues, fale um pouco da peça e de como foi montar Nelson
- Todo ator brasileiro deveria por obrigação fazer um Nelson. Eu confesso que nunca pensei em fazer um Nelson Rodrigues. Sempre amei ler os seus textos, as crônicas para os jornais e tudo. Mas nunca pensei em encena-lo, até porque tinha visto poucas coisas interessantes em termos de montagem. Sempre achava tudo muito gritado. Mas quando fui convidado para fazer Bonitinha Mas Ordinária não pensei duas vezes. Aceitei. E foi o máximo, porque Nelson é sempre intrigante. E nossa encenação brincava com ritmos da fala e optava por não fazer uso de nenhum cenário, só o ator em si, vivo em cena. Isso me motivou mais ainda. E vi o quanto ficou engraçada a peça. O quanto Nelson tem um humor surpreendente. E como eu estava em crise como ator, no sentido de questionamentos da profissão e outras dúvidas, acredito que fazer essa peça me deixou forte e ciente de que montar bons textos é fundamental.   


14. O que você diria para alguém que está iniciando a carreira de ator?
- Desista. E se a pessoa vier me perguntar de novo, eu direi: desista. E, se mesmo assim, a pessoa, correr muito atrás e não ligar por que eu digo, aí sim verei que ela tem vocação. Afinal, eu mesmo já ouvi de diversas pessoas isso: DESISTA!!! 


15. Você um dia me perguntou o que é ser ator. Para você o que é?
- Todo o dia quando acordo me pergunto: o que é ser ator? E tento responder todos os dias. Pra mim, ser ator é muita coisa. Além de decorar, é estudar o personagem. É brincar de ser Deus: porque criamos novas vidas. É emprestar a uma idéia de um personagem, nosso corpo e voz. É poder surtar diante de todos e ainda ser aplaudido. É poder ser louco em cena e receber o aval do público. É ser um apaixonado, um poeta da cena. Um Don Quixote eterno. É algo muito sério e fascinante. E concluo, dizendo que não é pra qualquer um, por mais que a cada dia muitos se arvorem a seguir essa profissão. 


2 comentários:

Cintia Costa disse...

Muito legal, Raul!
Lembro de ti la' pelo Moderno em 1989 nas peças do Zecão. Fiquei imensamente feliz quando ele propôs a criação de peças pelas turmas do 1o ano. Lá fui toda contente ensaiar com vários amigos. Momentos inesquecíveis com os saudosos Murilo e Carolina e outros muito queridos...
É, meu caro, ainda não consegui realizar meu sonho de ser atriz, mas sendo professora de inglês e português para estrangeiros, me realizo no palco da sala de aula. Quem sabe um dia ainda não me envolvo mais com o teatro? Pretendo fazer uns cursos por aqui pelos EUA e trabalhar em musicais, nem que seja só como hobby mesmo...
Muito sucesso para ti sempre! Amei teus vídeos no youtube! :-)

Raul Franco disse...

Ah, Cíntia, bacana!

Obrigado por sua visita e pelas boas lembranças de uma época modernista! rs

bjs e fique com Deus

Raul Franco